22 de fevereiro de 2008

País se torna credor líquido e custo de financiamento cairá


O coordenador de Planejamento Estratégico da Dívida Pública do Tesouro, Rodrigo Cabral, comentou ontem que a condição de credor externo líquido do país, alcançada em janeiro, terá como consequência a redução dos custos de financiamento. "Demonstra a solidez da economia e traz mais credibilidade ao Brasil. As agências de classificação de risco dão atenção para isso", afirmou.

O Banco Central divulgou ontem documento que revela ter o país alcançado, em janeiro, a condição de credor externo líquido. Isso decorre de volume de reservas internacionais maior que o da dívida externa.

Guilherme Pedras, coordenador de Operações da Dívida do Tesouro, afirmou que esse resultado histórico é uma consequência da estratégia do governo, iniciada em 2005.

Os objetivos foram alongar e melhorar o perfil da dívida pública reduzindo a exposição cambial. Além disso, Tesouro e Banco Central vêm atuando para articular a recompra de papéis da dívida externa e aumentar as reservas internacionais.

O Tesouro adotou a estratégia de realizar emissões de títulos no exterior apenas para melhorar a curva de juros estabelecendo, para o mercado, referências de papéis mais líquidos. Isso vem reduzindo o custo dessa dívida.

Neste ano, podem ser colocados papéis em reais ou em dólares. Pedras explicou que a recompra reduz a dívida externa e faz com que esses ativos fiquem mais escassos. Portanto, permite ao governo pagar taxas menores aos investidores.

Como as taxas pagas pelo Tesouro são referência para o mercado, Pedras concluiu que, a médio e longo prazos, a tendência é a de esse benefício ser repassado para todo o crédito.

O relatório da dívida pública em janeiro, divulgado ontem pelo Tesouro, informou que o estoque da dívida pública federal externa (DPFe) representa apenas 8,19% da dívida pública e chegou a R$ 107,4 bilhões (US$ 61 bilhões). Isso representa redução de 1,38% sobre o valor de dezembro. Desse total, R$ 83,1 bilhões (US$ 47,2 bilhões) são da dívida mobiliária e R$ 24,3 bilhões (US$ 13,8 bilhões) da dívida contratual.

Janeiro teve resgate líquido de R$ 1,9 bilhão na dívida externa. A composição da DPFe, no mês passado, teve os títulos e contratos denominados em reais com participação de 9,67%. As obrigações mobiliárias e contratuais em dólares representam 76,66% do total. Os papéis com vencimento em até 12 meses são 6,57% do estoque. Os títulos acima de cinco anos são 66,37%. O prazo médio, em janeiro, foi de 69,86 meses.


Dívida interna cai 1,71% em janeiro


O estoque da dívida pública mobiliária federal interna (DPMFi), em janeiro, reduziu-se 1,71% e chegou a R$ 1,2 trilhão. O pagamento de juros no mês passado foi de R$ 13,39 bilhões. Pelo fato de janeiro ser um dos meses chamados "cabeça de trimestre" e concentrar vencimentos de títulos prefixados, ocorre diminuição do estoque e há pequena deterioração na composição dos papéis.

O resgate líquido, em janeiro, foi de R$ 34,3 bilhões, decorrente de emissões de R$ 28,6 bilhões e resgates de R$ 62,9 bilhões. A dívida interna representa 91,81% da dívida pública federal.

Na comparação com dezembro, a participação dos prefixados caiu de 37,31% para 34,92% e a parcela ligada à Selic elevou-se de 33,39% para 34,77%. O grupo dos títulos ligados a índice de preços aumentou de 26,26% para 27,22%. Sem considerar as operações de swap, o peso dos papéis remunerados pela variação cambial aumentou ligeiramente, de 0,95% para 0,96%.

Em janeiro, a dívida interna teve ampliada sua parcela de curtíssimo prazo. Ela passou de 30,15% para 32,79% do total. No mês passado, o prazo médio da DPMFi aumentou de 36,47 meses para 37,61 meses e o custo médio acumulado nos últimos 12 meses reduziu-se de 12,88% ao ano para 12,78%.

O Tesouro informou ontem que os últimos leilões tradicionais de títulos, realizados em fevereiro, mostraram queda das taxas pagas aos investidores. O coordenador-geral de Operações da Dívida Pública, Guilherme Pedras, comentou que janeiro teve aumento dos juros em função das notícias da turbulência financeira internacional. "Têm ocorrido ajustes de preços de NTN-B e de outros papéis por causa das notícias da crise. A demanda tem sido de bom volume, com preferência para os prefixados", disse.

Esses leilões de fevereiro mostraram, segundo Pedras, aumento da demanda e foram realizados antes do anúncio da inflação de janeiro, menor que a de dezembro. Na opinião dele, o último leilão de NTN-B (índice de preços) teve volume considerável ofertado - 2,4 mil papéis curtos, com vencimentos em 2011, 2013 e 2017 - e tudo foi vendido.

O volume financeiro foi de R$ 3,8 bilhões. Além disso, afirmou que, desde o início do ano, as taxas das LTN (prefixadas) vinham subindo mas têm caído de forma "consistente" nas últimas semanas, segundo o Tesouro.

O relatório da dívida pública referente a janeiro também informou que o maior volume de emissões (R$ 15,2 bilhões ou 53,05%) foi de prefixados. Os papéis ligados à Selic captaram R$ 8,5 bilhões (29,74%), seguidos pelos títulos remunerados por índice de preços (R$ 4,8 bilhões ou 16,71%).

Pedras revelou ontem que fevereiro foi o primeiro mês com novas regras de conduta para os funcionários do Tesouro. Agora, podem comprar, com salvaguardas, títulos públicos no Tesouro Direto. O estoque desse programa chegou, em janeiro, a R$ 1,42 bilhão, com emissões de R$ 128,44 milhões (recorde mensal de vendas) e resgates de R$ 154,68 milhões. O coordenador informou que os papéis prefixados e os ligados a índice de preços responderam por 90% da demanda. Os registros indicam que há 106.139 investidores cadastrados, o que significa aumento de 39,15% nos últimos 12 meses.

País está mais resistente


O ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou ontem que a passagem do Brasil de devedor para credor no cenário internacional aproxima o país do grau de investimento ("investment grade"). Segundo Guido Mantega, as reservas brasileiras atingiram US$ 188,5 bilhões, enquanto a dívida total do país é de US$ 184 bilhões, dos quais US$ 68 bilhões correspondem à dívida pública. "Estamos em condições também de suprir a dívida privada caso quiséssemos. E desses US$ 68 bilhões, há títulos com vencimento em 2045, enquanto o crédito que temos é à vista", afirmou Guido Mantega, visivelmente satisfeito ao acrescentar que o Brasil atingiu o posto de credor externo pela primeira vez na história.

Mantega afirmou que o cenário atual deixa o Brasil mais resistente às crises externas como a turbulência recente que atingiu a economia norte-americana e os mercados internacionais.

O ministro acredita que o investment grade pode chegar ainda este ano e garante que as reservas brasileiras continuarão a subir e que a taxa básica de juros, a Selic, terá trajetória de queda nos próximos dois ou três anos. "A nossa taxa básica poderá ser semelhante à do México, que é de cerca de 7% ao ano."

Mantega discordou da análise feita por alguns economistas, que ponderam que o melhor para o Brasil seria manter algum nível de endividamento. Segundo ele, os países de maior destaque na economia, como China e Rússia, têm grandes reservas e pouca dívida. "Prefiro a posição de ter um bom saldo de divisas, tanto que temos a política de elevar as reservas. Esta situação veio para ficar."

O ministro afirmou que embora a política de acumulação de reservas contribua para aumentar a dívida interna, ajuda também a diminuir o risco do país e, conseqüentemente, as taxas de juros.
Mantega não comentou os baixos patamares alcançados pelo dólar, que ontem fechou a R$ 1,712, menor valor desde maio de 1999, e os efeitos sobre o setor exportador. Mais cedo, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, afirmou que a taxa de câmbio é uma "pendência" com o setor exportador.

Segundo Paulo Bernardo, o Brasil passa por um momento bom, que leva a um grande fluxo de dólares para a economia brasileira. "Nós temos que rever isso com outros mecanismos. Estamos preparando a segunda fase da política industrial e o governo vai entregar a reforma tributária no Congresso na próxima semana", frisou Bernardo, sugerindo que o governo possa apresentar medidas para compensar o setor exportador.

21 de fevereiro de 2008

Dólares voltam a entrar no país


Depois da forte saída de recursos em janeiro, diante do agravamento da crise no mercado imobiliário de alto risco americano (subprime), a ponto de o Banco Central dos Estados Unidos (Fed) cortar as taxas de juros em 1,25 ponto percentual em apenas 10 dias daquele mês, o Brasil voltou a atrair recursos estrangeiros. Nos nove primeiros dias úteis de fevereiro, o movimento cambial ficou positivo em US$ 1,048 bilhão, reduzindo de US$ 2,537 bilhões para US$ 1,309 bilhão o déficit acumulado no ano. Com isso, os preços do dólar desabaram. A moeda americana encerrou as negociações de ontem valendo R$ 1,724 para venda — baixa de 0,52% —, o menor patamar desde 23 de março de 2000.

“Janeiro foi o pico do estresse nos mercados financeiros mundiais, por causa do medo de uma recessão profunda na economia americana. E o Brasil acabou prejudicado, com a saída de capitais de curto prazo. Mas, ainda que não se saiba a real dimensão da crise provocada pelo subprime, os investidores voltaram a ter apetite pelo risco”, afirmou o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal. Para ele, mantida a atual temperatura do mercado, de mau humor moderado, os investidores vão retomar, com maior vontade, o fluxo de recursos para o país.

Além do cenário mais confortável, pois não se confirmou a previsão de uma onda de quebra de bancos mundo afora por conta do subprime nem a economia americana mergulhou em uma grave recessão, o Brasil voltou a ser beneficiado pela diferença de taxas de juros. Aqui, a taxa básica (Selic) está em 11,25% desde setembro do ano passado. Nos Estados Unidos, os juros já baixaram, desde então, mais de dois pontos percentuais, de 5,25% para 3% ao ano. “Ficou muito atrativo trazer dinheiro para o Brasil e aplicar em títulos de renda fixa”, explicou Leal.

Mas também a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) retomou seu espaço na rota do capital estrangeiro. Nos primeiros 10 dias de fevereiro, o saldo das aplicações ficou positivo em US$ 171 milhões (R$ 299,9 milhões), dinheiro suficiente para sustentar uma importante recuperação nos preços das ações. Segundo o Banco Central, os investimentos em bolsa entram na conta financeira do movimento cambial. E, na primeira prévia de fevereiro, o saldo ficou negativo em US$ 434 milhões. Em todo o mês de janeiro, a conta havia registrado déficit de US$ 6,530 bilhões.

Abaixo de R$ 1,70
Na avaliação de Newton Rosa, economista-chefe da Sul América Investimentos, mantido o atual quadro, sem turbulências fortes, é possível apostar que o dólar caia abaixo de R$ 1,70 nos próximos dois ou três dias. Isso, mesmo com o Banco Central comprando os excedentes da moeda, como fez ontem. Ele destacou que a balança comercial continua forte. Tanto que, nos nove primeiros dias de fevereiro, o saldo comercial ficou positivo em US$ 1,482 bilhão. Os contratos de exportações somaram US$ 5,505 bilhões e os de importações, US$ 4,023 bilhões.

Para Rosa, os investidores estrangeiros estão sabendo distinguir, em meio à crise internacional, os bons fundamentos da economia brasileira. A inflação, destacou, está sob controle, a economia está crescendo a taxas acima de 4%, o governo mantém firme o compromisso de fazer um superávit primário (economia para pagar os juros da dívida) de 3,8% do Produto Interno Bruto (PIB) e as contas externas estão no azul. “Basta lá fora ficar tranqüilo para que os mercados aqui caminhem sem grande volatilidade”, frisou.

20 de fevereiro de 2008

A mentira que a folha conta...E desmete


A Folha desclassificada e sem vergonha deu uma notinha no cantinho de página onde diz "erramos" O certo seria: MENTIMOS

Folha corrige erro que envolve nome de Tarso Genro


A Folha de São Paulo publicou na edição de quinta-feira (14) na coluna “Erramos” a correção da matéria “O governo e os reembolsos”, com informações inverídicas envolvendo o nome do ministro da Justiça, Tarso Genro. Segundo a nota do jornal: “Por um erro de edição, o quadro “O governo e os reembolsos” publicou incorretamente que o ministro Tarso Genro recebeu R$ 3.234,00 como reembolsos de despesas em 2007. O valor correto é R$ 594,00”.

O Ministério da Justiça, por sua vez, esclarece que o dinheiro (R$ 594) depositado equivocadamente na conta do ministro foi devolvido prontamente aos cofres da União por Tarso Genro, através de uma guia de recolhimentos do Banco do Brasil.

Inflação sob controle faz cair os juros


Depois de subirem com força a partir de setembro, pulando de 4% para perto de 4,5%, as expectativas para a inflação deste ano começaram a dar sinais de acomodação nas últimas semanas - e até de queda. Na pesquisa divulgada ontem pelo Banco Central (BC), as projeções do mercado para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) caíram de 4,45% para 4,39%, ficando mais longe do centro da meta de 2008, de 4,5%. Os números mais favoráveis de inflação conhecidos nos últimos dias - o IPCA de janeiro ficou em 0,54%, abaixo do 0,6% previsto pelos analistas - colaboraram para a acomodação das expectativas, o que é fundamental para que não haja uma alta de juros.

No regime de metas de inflação, a evolução das expectativas tem um peso importante, como deixa claro a ata da reunião de janeiro do Comitê de Política Monetária (Copom). Nela, o BC diz que as perspectivas do repasse de pressões do atacado para o varejo dependem de "forma crítica das expectativas para a inflação", assim como a eventual generalização de pressões inicialmente localizadas sobre os IPCs. O documento ressalta que as projeções "continuam sendo monitoradas com particular atenção". As estimativas para 2009 estão há três semanas em 4,2%.

O problema é que há muita controvérsia quanto a essas projeções. Elas são muito influenciadas pela inflação corrente e mostram-se freqüentemente erradas, tanto no longo como no curto prazo. Outra crítica é que refletem principalmente a opinião de instituições financeiras, e representam pouco as empresas da economia real.

O ex-presidente do BC Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria Integrada, acredita que manter as projeções de mercado sob controle torna mais fácil o cumprimento da meta. "Está bem demonstrado, na teoria e na prática, que expectativas mais elevadas de inflação levam a maiores reajustes de preços", diz ele, para quem, "ainda não se encontrou nada melhor do que as pesquisas de opinião" conduzidas pelo BC.

Loyola não se furta, porém, a apontar problemas em relação às expectativas de inflação. Um deles é que os índices de preços correntes têm muito peso na formação das projeções futuras. A questão, diz ele, é que mesmo os indicadores correntes já refletem o comportamento dos preços no passado, pois são divulgados com alguma defasagem.

O professor Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, descreve o regime de metas como "um jogo de administração de expectativas entre o BC e o mercado". Para ele, as projeções têm a sua importância, mas devem ser relativizadas. Um dos motivos é que muitas vezes elas se mostram equivocadas.

Uma avaliação do relatório Focus do BC, que reúne as estimativas dos analistas para diversos indicadores econômicos, indica um baixo grau de acerto. No fim de 2003, o Focus apontava um IPCA de 6% no ano seguinte, mas a inflação efetiva em 2004 ficou em 7,6%. Em dezembro de 2005, o mercado projetava um IPCA de 4,5% em 2006, mas o indicador foi de 3,1%.

Para o professor Paulo Gala, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a formação de expectativas de médio e longo prazo é realmente precária. "Acima de seis meses, não há uma base material objetiva para as projeções", afirma ele. "Elas são formadas por um consenso de mercado, em cima do que alguns analistas acham. É algo muito auto-referenciado."

Em prazos mais longos, o espaço para choques sobre os preços é mais elevado, aumentando a incerteza das projeções. A questão é que há erros significativos também nas previsões de curto prazo. No fim de novembro de 2007, as instituições ouvidas pelo BC estimavam que o IPCA de dezembro ficaria em 0,35%. No entanto, com a persistência da alta dos preços de alimentos, o indicador ficou em 0,74%. Nas últimas semanas, essas pressões se abrandaram e as cotações de serviços (como aluguéis, mensalidades escolares e cabeleireiro) mostraram-se comportadas, combinação que contribuiu para um IPCA mais baixo em janeiro.

Outra polêmica é o perfil das instituições que participam do Focus. Belluzzo e Gala destacam que o peso de bancos e consultorias é muito forte, enquanto o setor real é pouco representado. "Há um viés do mercado financeiro nas expectativas", afirma Gala.

O BC não informa qual a proporção de bancos e consultorias que respondem ao Focus. Consultada, a autoridade monetária informou que, na pesquisa divulgada ontem, 71 instituições fizeram projeções para o IPCA. O número pode variar a cada levantamento, e é diferente para cada indicador, pois nem todos os participantes fazem estimativas para todos eles. Além de bancos e consultorias, grandes empresas e fundos de pensão integram a amostra.

Loyola diz que seria desejável que mais empresas participassem da pesquisa, mas lembra uma limitação simples: poucas companhias têm um departamento econômico capacitado a fazer previsões. Gala também reconhece que fazer previsões não é o negócio principal das empresas do setor real. Com isso, é difícil mudar o perfil das instituições que fazem parte do Focus.

O diretor de renda fixa e economia da Unibanco Asset Management , Alexandre Mathias, também vê problemas na formação de expectativas, mas as considera muito importantes para o regime de metas. "Quanto mais ancoradas estiverem as projeções do mercado, menor o custo social da política monetária." Para Mathias, seria errado e inconsistente se o BC reagisse única e exclusivamente ao comportamento das expectativas do Focus para calibrar o nível dos juros, mas também seria equivocado ignorá-las. "Em média, o Focus é uma boa aproximação das expectativas da sociedade, o que não quer dizer que não tenha erros."

Nesse cenário, o ideal é também analisar outros indicadores que mostram as estimativas dos agentes econômicos para a trajetória da inflação, diz Mathias. Ele cita as taxas implícitas nos títulos públicos corrigidos pelo IPCA e o nível dos reajustes salariais obtidos pelos trabalhadores, por exemplo.

Embora dê bastante importância às expectativas, o BC obviamente leva em conta vários outros fatores na hora de definir o nível dos juros. Num documento divulgado em maio de 2007, o BC trata do processo de decisão do Copom. A instituição esclarece que considera muitas variáveis, quantitativas e qualitativas, para analisar a trajetória da inflação e definir o nível dos juros.



19 de fevereiro de 2008

Lucro do BNDES tem novo recorde, R$ 7,314 bilhões


O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) comemorou ontem novo lucro recorde nas suas operações, atingindo R$ 7,314 bilhões em 2007, número 15,5% superior ao recorde anterior registrado em 2006 (R$ 6,331 bilhões). "O resultado reflete o excelente momento que atravessa a economia do país", disse Maria Isabel Aboim, superintendente de Finanças do banco.

Até agora, o lucro de 2007 do BNDES só perdeu, na banca comercial, para os R$ 8,47 bilhões do Itaú e R$ 8,01 bilhões do Bradesco. Mais do que o retorno da carteira de empréstimos, o resultado foi influenciado pelo desempenho da carteira de renda variável e por inadimplência quase inexistente.

A venda de ações da carteira da BNDESPar (subsidiária do banco para a área de participações) gerou um resultado de R$ 3,7 bilhões. Somente com a operação de venda de ações do Banco do Brasil, em dezembro, o BNDES obteve lucro de 1,079 bilhão. A carteira de ações gerou retorno de R$ 1,4 bilhão em dividendos e em juros sobre o capital próprio. O resultado bruto da intermediação financeira caiu de R$ 4,9 bilhões para R$ 4,8 bilhões.

Em 31 de dezembro de 2007 a inadimplência dos clientes do BNDES não passava de 0,11% da carteira, contra 0,68% no final de 2006. A título de exemplo, segundo dados do Banco Central, a inadimplência das pessoas jurídicas no Sistema Financeiro Nacional alcançava em dezembro do ano passado 5,7% em desconto de duplicatas, 4% em desconto de promissórias e 1,6% em capital de giro. Diferente de todos os produtos citados, os empréstimos do BNDES são, basicamente, de longo prazo.

A baixa inadimplência e a recuperação de créditos antigos permitiram que o banco revertesse R$ 1,4 bilhão em provisões para risco de crédito. Em 2006 a reversão havia sido de R$ 1,1 bilhão. A reversão, segundo o BNDES, teve como um das suas principais causas a revisão da classificação de risco de Estados e municípios. A recuperação de créditos foi de R$ 1 bilhão. Entre as provisões revertidas, segundo o banco, estão R$ 424 milhões da AES Cemig, em decorrência de repactuação de créditos.

O patrimônio líquido banco estatal saltou de R$ 19,09 bilhões em dezembro de 2006 para R$ 24,92 bilhões em dezembro do ano passado. Com isso, o chamado patrimônio de referência (PR) do BNDES, que serve para balizar os limites prudenciais estabelecidos pelo BC para as instituições financeiras, passou de R$ 33,8 bilhões para R$ 41,5 bilhões.

O PR é a soma do patrimônio líquido com instrumentos indiretos de capitalização, sendo o principal deles parcela da chamada dívida subordinada, o saldo do principal dos repasses do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) para o banco. Essa dívida, embora contabilizada, não tem prazo de pagamento e sua exigibilidade só ocorrerá em situações excepcionais, como crise no seguro-desemprego. O BNDES fechou 2007 com ativos totais de R$ 202,6 bilhões, aumento de 8,1%. O saldo das operações de crédito somava R$ 164,5 bilhões (R$ 146,9 bilhões em 2006).



Inflação afasta temor do BC e juro desaba


Mesmo sem a referência do mercado americano, fechado por causa do feriado do Dia do Presidente, os juros desabaram no pregão de CDI futuro da BM&F. Os três componentes internos da formação da taxa de juros não só descartam a necessidade de aumento da Selic como sugerem a possibilidade de o Copom vir a retomar o processo de corte no segundo semestre do ano. Os juros futuros só não caíram mais porque a quarta variável - a crise financeira externa - permaneceu em suspenso devido ao feriado nos EUA. Ainda que o mercado monetário brasileiro esteja parcialmente desacoplado de Wall Street, as fortes quedas de ontem terão de ser reconfirmadas hoje, quando Nova York voltar ao ar. A nacionalização da instituição inglesa especializada em crédito hipotecário, a Northern Rock, não obstou a via de baixa dos juros.

Dólar tomba apesar da balança comercial

Os tombos sofridos pelos DIs foram generalizados, não discriminando entre contratos curtos e longos. A taxa para a virada do ano recuou de 11,78% para 11,68%. O CDI negociado para janeiro de 2010 caiu de 12,46% para 12,35%. O contrato com vencimento em janeiro de 2011 tombou, por sua vez, de 12,66% para 12,52%. E o swap de 360 dias caiu de 11,87% para 11,78%. Como a curva de juros, apesar das fortes quedas, mantém sua inclinação positiva, ainda incorpora a perspectiva de elevação da taxa Selic em algum momento do futuro.

O declínio dos juros futuros foi acentuado porque a inflação não só recuou em seu aspecto corrente como arrefeceram as expectativas futuras. O IPC-S da FGV caiu de 0,82% para 0,48%, evidenciando a perda de pressão dos alimentos. E as instituições pesquisadas pelo boletim Focus do BC reduziram de 4,45% para 4,39% a previsão de IPCA para este ano. As estimativas para o índice oficial de inflação referente aos próximos 12 meses e a 2009 prosseguem abaixo da meta de inflação, em 4,26% e 4,20%, respectivamente. Se o IPCA, tanto o presente quanto o futuro, não preocupa, o consumo não parece ter, por seu lado, força suficiente para tirar o indicador de sua rota acomodada. A pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre as vendas feitas pelo varejo no sempre aquecido mês de dezembro foi decepcionante para os players "comprados" em juros futuros, os que apostam na alta da Selic. As vendas ficaram, segundo o IBGE, estáveis comparativamente a novembro. Em relação a dezembro de 2006, a expansão de 9% não foi nada brilhante, pois abaixo do teto das expectativas, de 10,3%. Ou seja, as vendas comerciais não sustentam a visão de inflação de demanda potencialmente explosiva. Trata-se, no entender do economista-chefe da consultoria UP Trend, Jason Vieira, de mais um dado para reforçar a "retomada do processo de afrouxamento monetário, ao menos no segundo semestre deste ano". O cenário, que conjuga vendas fracas, queda do dólar e ampla oferta de importados, dissipa, no entender de Vieira, as apostas de um aumento de juros por parte do Copom, "com abertura de espaço para uma retomada dos cortes dos juros".

A MB Associados mantém a projeção de IPCA dentro da meta de 4,5% este ano, diz o economista Sérgio Vale, apesar da persistência das pressões de alta vindas da alimentação. Segundo estudo da consultoria, o estoques das principais commodities agrícolas nunca estiveram tão baixos, como nos casos do trigo e do milho, e os preços no mercado futuro dos produtos agrícolas entraram 2008 ainda com tendência de alta. "Com a inflação tendendo a ficar ao redor da meta, a sinalização é ainda de manutenção da Selic em 11,25%", mas a MB continua a acreditar que a indicação de preços de alimentação neste começo do ano terá um peso importante na decisão do BC.

Apesar da fragilidade demonstrada pela balança comercial neste começo de ano, o dólar persiste afundando. A moeda caiu ontem 0,96%, cotada a R$ 1,7360. Do início do ano até agora, o dólar já se desvalorizou 2,31%. Como não há sobreoferta física de dólares, conclui-se que a queda resulta das operações fechadas com moeda virtual no mercado futuro da BM&F, transações destinadas a ganhar a taxa Selic. Na terceira semana de fevereiro o superávit comercial foi de apenas US$ 321 milhões, acumulando US$ 1,06 bilhão no mês e US$ 2 bilhões no ano. O saldo caiu 62,5% em janeiro em relação ao mesmo período do ano anterior. E, em fevereiro, recua 51%. Enquanto as exportações crescem 9,7%, as importações avançam quase 30%. Não era para o dólar estar caindo tanto, sobretudo diante da crise externa. É o milagre do juro alto.

Valor Econômico

Supermercado puxa recorde do comércio em 2007


O setor de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo contribuiu com 3,2 pontos percentuais para o avanço de 9,6% registrado pelo volume de vendas do comércio varejista no ano passado. O segundo maior peso ficou com móveis e eletrodomésticos, grupo que contribuiu com 2,3 pontos percentuais para o total do comércio em 2007.

De acordo com Reinaldo Pereira, técnico da coordenação de serviços e comércio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os híper e supermercados se beneficiaram do aumento da massa salarial e da expansão do crédito, observados ao longo de todo o ano, inclusive com o aumento da utilização de cartões ligados às próprias empresas varejistas.

Os dois grupos contribuíram para que o comércio varejista fechasse com o melhor resultado da série histórica, iniciada em 2001. O patamar alcançado no ano passado foi mais significativo que os 9,3% de alta registrados em 2004. "A base de comparação em 2004 era baixa, com três anos seguidos de queda. Em 2007 o resultado foi mais significativo", explicou Pereira.

O resultado acumulado ao longo do ano foi puxado pelo desempenho do primeiro semestre, quando o comércio varejista subiu 9,8%, contra 9,5% nos últimos seis meses do ano. Pereira lembra ainda que o resultado do ano só não foi melhor porque as vendas de dezembro não foram melhores que as de novembro. Entre os dois últimos meses do ano, o volume de vendas não variou.

"Como explicar um novembro melhor que dezembro? Por conta da oferta de crédito e do aumento da renda, que fazem com que as pessoas não dependam mais do 13º salário para fazer as compras de Natal", ponderou Pereira.

Para Emerson Kapaz, consultor estratégico do Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV), o desempenho de dezembro impediu que o varejo fechasse o ano com aumento superior a 10% no volume de vendas. "Nossa projeção era de um crescimento de 9,7%, mas achávamos que poderia ficar acima dos 10%, o que não se concretizou, porque dezembro não foi tão bom quanto se imaginava."

Kapaz afirmou ainda que o crescimento do varejo em 2007 se baseou em três pilares: o aumento da massa salarial e da renda, a ampliação do crédito e o avanço da confiança do consumidor. A continuidade esperada para esses três fatores leva Kapaz a prever mais um bom resultado para o varejo este ano. O consultor trabalha com uma projeção de alta entre 6,5% e 7% para o volume de vendas em 2008.

"O ano de 2007 foi muito bom, mas o varejo deve continuar crescendo, a não ser que haja uma crise mundial", avalia Kapaz. "O crédito no Brasil hoje é de cerca de 34% do PIB, mas ainda bem abaixo da média mundial e a confiança do consumidor não deve mudar. A inflação poderia ser uma preocupação, mas não vejo os preços como fator de preocupação."

Pereira, do IBGE, acrescenta que, até o momento, o comércio brasileiro não mostra sinais de estar sendo afetado pela crise nos mercados dos Estados Unidos. "Não há indicações de que vá mudar (o movimento de alta das vendas)", disse.


 

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