quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Por que Luiz Inácio desagrada Caetano Veloso

Grande artista, não faz falta a Caetano Veloso um diploma de nível superior. Seus recentes comentários injuriosos a respeito do presidente com a maior aprovação da História do Brasil são indiscutivelmente coerentes - com sua visão de mundo, com a visão da classe a que pertence, assim como dos meios de comunicação que as constroem incansavelmente, bloqueando qualquer ensaio de questionamento ao seu insistente pensamento único.

Ao se referir a Lula como ‘analfabeto’, o termo está sendo utilizado de forma equivocada, pois ‘analfabetismo’ significa ‘não saber ler nem escrever’. Imagino que ele esteja se remetendo, de maneira exagerada, ao fato de Lula não ter diploma de graduação, coisa que o compositor tampouco possui. Esse tipo de exigência não é nem mesmo cogitada ante outros artistas geniais como Milton, Chico, Cora Coralina... Gilberto Gil, ex-ministro do governo Lula, graduou-se, mas não em música... ‘Ah, mas eles são artistas...’. E não seria a Política uma arte? Um pouco de Platão e Aristóteles não faz mal a ninguém...

Quanto à suposta ‘cafonice’ de nosso presidente, situado na revista americana Newsweek em 18° lugar entre as pessoas mais poderosas do mundo, Pierre Bourdieu (1930-2002) nos traz uma contribuição preciosa. De origem campesina, como Lula, o sociólogo francês criou conceitos que desmoronam o velho chavão do ‘gosto não se discute’. Para Bourdieu, não só se deve discutir, como estudar, compreender, aquilo que se trata de, mais que uma questão de ‘classe’, uma questão de ‘classe social’.

Além do enorme abismo do ponto de vista propriamente econômico, os ‘gostos diferenciadores’, referentes ao ‘estilo de vida’, consistem na maior marca de violência simbólica e num fundamental instrumento de legitimação da dominação das classes dominadas pelas dominantes.

Não somente é desigual a distribuição de renda numa sociedade dividida em classes, mas também o acesso à educação formal e informal - o hábito de freqüentar museus, espetáculos de teatro, música, dança - à sofisticação do vocabulário, às regras de etiqueta, à constituição da apresentação pessoal, dos ‘modos’ e atitudes corporais. Obviamente, alcançar maior poder aquisitivo não possibilita a aquisição desse ‘capital cultural’ adquirido ao longo de toda uma vida no convívio com ‘outras pessoas elegantes’, ou seja, com a ‘elite’. Uma expressão precisa para designá-las, utilizada corriqueiramente na Zona Sul do Rio, é ‘gente bonita’ - como sinônimo de portadores de determinadas marcas de classe evidentes pelo vestuário, linguajar, cabelos, corpos, modos, atitudes.

Bourdieu demonstrou os aspectos, às vezes despercebidos, da ‘construção social’ do gosto, seja o gosto de Caetano, das elites, dos que gostariam de ser elite, pretendendo se distinguir da massa supostamente ‘inculta’. Em outras palavras, as classes às quais pertencemos determinam, em grande parte, nossos critérios aparentemente inatos do que vem a ser elegância, numa relação de constante imitação, pelos ‘cafonas’, dos considerados detentores dos critérios de julgamento estético.

Lula não segue a corrente dos imitadores: mantém-se fiel à cafonice que o identifica com suas origens populares. Ah, como isso incomoda...

Embora seja assistido desde tempos imemoriais, lembrando que Norbert Elias estudou como a nobreza francesa era imitada por suas congêneres do resto da Europa no Ancien Régime, aqui, no Brasil, o fenômeno da distinção alcança as fronteiras do ‘nojo’, das reações fisiológicas desagradáveis, diante de tudo que possa remeter a atributos das classes populares, tudo que venha do ‘povão’.

Não é à toa que o REUNI – Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais que tem como objetivo "criar condições para a ampliação do acesso e permanência na educação superior, no nível da graduação, pelo melhor aproveitamento da estrutura física e de recursos humanos existentes nas Universidades Federais" – seja alvo de críticas ferrenhas, apesar de vir ao encontro de demandas por mais vagas já presentes nos protestos estudantis da França e do Brasil há quarenta anos, os quais, aqui, jamais sequer haviam sido objeto de atenção pelos governos.

A demanda por cidadania e não por privilégios restritos é assunto que dá nojo, dá ‘gastura’, como se fala no interior do Brasil. Mas isso são outros quinhentos...

Embora o acesso universal à educação deva ser uma meta, podemos questionar – como muitos eminentes acadêmicos questionam – que a universidade seja a única fonte de conhecimento legítimo, sob o risco de repetirmos, em outros moldes, o papel de detentora do saber exercido pela Igreja Católica Medieval. O que seria de nós sem a contribuição inestimável de tantos notáveis que por ela não passaram?

Pode-se argumentar, contudo, que o referido compositor não tem preconceito de classe ou contra a falta de diploma, pois pretende votar em Marina Silva que, como Caetano, não possui graduação, e que, como Lula, tem origem humilde. (O curioso é que, sendo a candidata à sucessão de Lula uma economista, dessa vez, a mesma é cobrada por não possuir mestrado e acusada de ter lutado contra a ditadura militar: sempre inventarão motivos contrários a políticas públicas que ferem ideais de distinção de classe). Ao contrário do que parece, os atributos de Marina caem como uma luva para nossa conservadora classe média leitora do Globo e da Veja e que jamais se assumirá preconceituosa: portar a nobre e indignada bandeira da causa verde faz disparar sua pontuação no quesito ‘elegância’. Os que se preocupam ardentemente com a possibilidade de vida de seus netos e bisnetos são tocados em seu íntimo pelas questões ligadas à salvação das florestas.

Só que, mais uma vez, como a História sempre ajuda a enxergar, o buraco – na camada de ozônio – é mais embaixo: a destruição do planeta é a consequência inexorável de um sistema perverso que nele vem se instalando há alguns séculos. Ao longo de suas notáveis transformações, atingiu um ponto em que passou a se dar conta de seu próprio potencial de destruição e de identificar na preocupação com a natureza uma boa – e quem sabe, lucrativa - causa.

Do ponto de vista das chamadas ‘Gerações’ de Direitos Humanos, ao longo dos desdobramentos do capitalismo, a causa ecológica nasceu como a terceira filha. Enquanto a primeira, a segunda e a terceira gerações são identificadas com os ideais da Revolução Francesa - Liberdade, Igualdade e Fraternidade - a quarta, mais recente, relaciona-se a questões da Bioética e aos movimentos de segmentos minoritários ou discriminados da sociedade.

A liberdade refere-se aos direitos civis e políticos, chamados de ‘direitos negativos’, pois limitam o poder exorbitante do Estado, que deve deixar o indivíduo viver e atuar politicamente.

A igualdade consiste na luta pelos direitos sociais, culturais, econômicos, e demandam uma atuação ‘positiva’ do Estado no sentido de realizar ações que proporcionem condições de acesso de todos os indivíduos à educação, saúde, moradia, assistência social, dignidade no trabalho. Finalmente, a fraternidade esta ligada à ecologia, à preocupação com o destino da humanidade, irmanada por sua condição de habitante do planeta Terra.

Como se situaria o Brasil nessa História? Não vivemos mais no tempo de Marx, das jornadas de trabalho de 18 horas que não poupavam mulheres e crianças caindo mortas de fome ao redor das grandes máquinas sujas das fábricas.

Hoje, longos tentáculos buscam mão de obra barata como a planta se dirige à luz do sol e os dejetos – da poluição e os seres humanos excluídos da participação em suas benesses - são escondidos do campo de visão dos que têm ‘bom gosto’.

Depois de destruir suas próprias florestas, os países ricos se preocupam e ditam regras da etiqueta politicamente correta aos pobres, abraçando a ‘causa ecológica’ com a mesma eloqüência que ontem defenderam que a ‘mão invisível do mercado’ traria a felicidade geral.

Hoje, uma mão visível segura imponente a bandeira do orgulho verde. Porém, o corpo do qual faz parte constitui-se de fome, miséria, doença, condições abaixo de qualquer noção de dignidade da pessoa humana.

A bandeira parece ser de um médico, mas o sujeito que a segura é um ‘elegante’ monstro. Chega a ser apelativo falar em salvar o planeta tirando de contexto uma causa que ninguém ousará contestar. Mas que tal pesquisar casos concretos de vínculos incontestáveis entre partidos verdes de diferentes países com os setores mais conservadores das respectivas sociedades? Visualizando a imagem do monstro, de braços dados com uma chiquérrima Brigitte Bardot salvando animais, faz todo sentido. A Bela e a Fera...

De modo algum defendo qualquer teleologia e que tenhamos que passar por fases que os outros já passaram. Nem que os sete anos de Governo Lula tenham se proposto a enfrentar bravamente, contra tudo e contra todos, o capitalismo que domina quase toda a superfície do planeta.

Ninguém falou em Revolução, aliás, não era esse o combinado. Apenas assisto a um esforço hercúleo de instaurar políticas que ferem o coração desses mecanismos de violência, real e simbólica, que o julgamento do que é ou não cafona só vem a perpetuar, no sentido de minimizar o enorme fosso que separa os que têm e os que não têm acesso a conquistas históricas impreteríveis do Ocidente, independentemente de obediência a qualquer cronologia, identificadas com os direitos humanos: combate à fome à miséria, acesso universal à educação, à energia elétrica, diminuição da desigualdade ímpar que nos assola.

Fraternidade também quero, mas junto com a Liberdade, e principalmente, o que mais nos falta, Igualdade! Não igualdade no sentido anatômico, igualdade de condições, junto com a quarta geração.

Não indignar-se com a miséria, agarrar-se ferrenhamente a seus privilégios, assim como espernear diante de sinais de mudança, faz parte do aprendizado de cegueira, inércia e arrogância por que passam nossas elites com seu gosto sofisticado. Mas ao contrário de um regime de concordância geral, o ideal de democracia é caracterizado justamente pela coexistência de opiniões diversas a respeito das políticas do governo.

À insatisfação proveniente de certo campo ideológico correspondem, certamente, avanços jamais assistidos na História do Brasil. Com vínculos ideológicos resumidos na figura de ACM, nutridora de uma ordem social desigual desde 1500, existe uma indiscutivelmente sincera elite baiana à qual, desagradar, é sinal de que Lula está no caminho certo!por Marta Peres

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Globo desinfeta praça do centro de SP para gravar nova novela

Se é verdade que lavou, tá novo, nada como alguns litros de desinfetante e dez caminhões-pipas para transformar a praça Ramos em cidade cenográfica.

Foi assim que, no sábado, o sol mal saíra e boa parte dos problemas do centro estavam resolvidos (pelo menos ali): fonte cheia e funcionando, passeio inodoro e, com pedidos gentis, sem moradores de rua.

Quase irreconhecível, a praça foi tomada por faixas, grandes bolas coloridas e paulistanos comemorando o aniversário da cidade. Um piano de cauda e violoncelistas completavam o cenário --de novela, é claro.

Tudo para que, por volta das 9h, Alessandra Maestrini e Tuna Dwek assumissem seus postos para gravar cenas da próxima novela das 19h, "Tempos Modernos", de Bosco Brasil.

"O centro já foi revitalizado, como o Soho, como Barcelona. É humano e está esteticamente maravilhoso. Casa com o conceito da novela", diz o diretor-geral José Luiz Villamarim.

Será naquele miolo entre a rua Libero Badaró e o Teatro Municipal que se encontrarão a maioria dos personagens. O núcleo será o edifício Titã, do personagem de Antônio Fagundes, controlado por um computador central chamado Frank.

"É como o Hal de "2001: Uma Odisseia no Espaço", e também nos referimos ao [diretor Stanley] Kubrick em cenas que remetem a "Laranja Mecânica" pelo jeito como foram feitas. Boa parte do público nem nota, mas são coisas que dão uma graça a mais", diz Villamarim.

A mocinha, a astrônoma aventureira Nelinha, será vivida por Fernanda Vasconcellos. "O texto tem humor, mas não vou forçar gracinhas porque o público não é burro", conta. Ela diz não se preocupar em desassociar a imagem da dramática Nanda de "Páginas da Vida" (2006-2007).

"Isso não me incomoda, foco em fazer uma personagem o mais realista possível. Além do que a Nelinha é diferente, mais forte. Não que seja mais fácil. Para mim, fazer rir é tão difícil quanto emocionar." Folha

Lula deve definir nesta semana data para sancionar lei que cria Secretaria de Futebol

O presidente Lula deve definir nesta semana a data para a sanção do projeto de lei que cria a Secretaria Nacional de Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor no Ministério do Esporte. O ministro Orlando Silva disse que vai se reunir com Lula, nesta quarta-feira (11), para tratar desse assunto e também da preparação dos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.

Uma das atribuições da secretaria será a de coordenar as ações governamentais referentes à Copa do Mundo de 2014. A proposta foi aprovada pelo Senado na semana passada.

Hoje (9), começou a rodada de discussões do governo federal com as administrações das 12 cidades-sedes da Copa sobre mobilidade urbana. As duas primeiras cidades foram Recife e Brasília. Segundo o ministro, o limite de investimentos da União nesse quesito é de R$ 5 bilhões em todas as cidades.No encontro, o governo de Pernambuco apresentou três projetos para a construção de vias exclusivas de ônibus e interligar a estrutura de transporte público nas regiões onde estão a rede hoteleira da capital e o estádio.

Além de Orlando Silva, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e o prefeito de Recife, João da Costa, estiveram na reunião, realizada no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), sede provisória da Presidência da República.

domingo, 8 de novembro de 2009

Bicada em Caetano

Nem todos os tucanos gostaram da entrevista de Caetano Veloso à jornalista Sônia Racy, do ‘Estado’, em que o cantor chama o presidente Lula de “analfabeto” e “cafona” e diz que votará em Marina Silva (PV) a presidente em 2010. No Twitter, o secretário municipal de Educação, Alexandre Schneider, disse que Caetano foi “grosseiro, inadequado e “ em sua crítica ao presidente. “Melhor cantando e compondo”, disse ele. É a mesma posição externada por petistas após a entrevista e alguns colegas de Caetano no meio artístico.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Petista propõe conselho da igualdade social

 
A Mesa Diretora da Assembleia Legislativa do Tocantins encaminhou ontem projeto de lei para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ)que dispõe sobre a instituição do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial. Segundo a autora, deputada Solange Duailibe (PT), o conselho terá a finalidade de propor, em âmbito estadual, políticas de promoção da igualdade racial com ênfase para a população negra e outros segmentos étnicos. O objetivo, diz ela, é combater o racismo, o preconceito e a discriminação racial.

IBGE revisa alta do PIB de 2007 para 6,1%

A expansão da economia brasileira em 2007 foi revisada para cima pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A taxa de 5,7%, calculada anteriormente para o Produto Interno Bruto (PIB), foi recalibrada para 6,1% pelo instituto, que apresentou ontem o resultado definitivo. Com isso, o crescimento daquele ano passou a ser o maior do governo Lula e também a maior expansão econômica do País em 21 anos, atrás apenas do resultado de 1986, ano do Plano Cruzado, com 7,5%.

Os dados revelam ainda que a valorização do real diminuiu a participação da indústria - segmento fortemente influenciado pela cotação do dólar - no PIB de 2004 a 2007, ao mesmo tempo em que elevou a fatia dos serviços. A divulgação cumpre um cronograma oficial, que determina que os dados definitivos do PIB só são concluídos quase dois anos após o fechamento do ano a que se refere o indicador.

Os resultados anunciados antes desse período são considerados preliminares. O primeiro dado sobre o crescimento econômico de 2009, por exemplo, será divulgado em março do ano que vem. Segundo o coordenador de contas nacionais do IBGE, Roberto Olinto, a conta final inclui pesquisas anuais do instituto e informações consolidadas de empresas. A defasagem entre o fechamento do ano e a divulgação dos resultados definitivos ocorre no mundo todo, segundo Olinto. "Não dá para reduzir o prazo, é um padrão que ocorre em qualquer País."

Com a revisão do PIB, o desempenho de 2007, que havia empatado com o de 2004, ultrapassou de longe os dados registrados durante o governo Fernando Henrique Cardoso (1995 a 2002), cuja maior expansão foi de 4,3%, em 2000.

A revisão para cima foi puxada pela indústria - que cresceu 5,3%, ante 4,7% na divulgação anterior - e pelos serviços, cuja variação do PIB em 2007 passou de 5,4% para 6,1%. Outro impacto importante foi dado pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que corresponde a investimentos e passou, com a revisão, de 13,5% para 13,9%.

"Os novos resultados indicam que o desempenho da economia brasileira em 2007 foi ainda melhor do que o anteriormente divulgado, com maior concentração nos setores industriais e de serviços, e puxado por um maior consumo do governo e mais investimentos", observou o analista da Tendências Consultoria, Bernardo Wjuniski. O consumo da administração pública passou de 4,7% para 5,1%.

DÓLAR

Os dados revelaram também que a participação da indústria no PIB caiu de 30,1% em 2004 para 29,3% em 2005, 28,8% em 2006 e 27,8% em 2007. Já os serviços tiveram trajetória ascendente, de 63% do PIB em 2004 para 66,6% em 2007.

O gerente da coordenação de contas nacionais do instituto, Cristiano Martins, atribuiu a mudança à valorização da moeda brasileira. Entre 2004 e 2007, o real valorizou-se cerca de 37%. E somente de 2006 para 2007, a valorização foi de 10,5%.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Delegados defendem o fim do foro privilegiado

O delegado Sandro Torres Avelar, presidente da Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal, pregou ontem mudança na lei que garante foro privilegiado a autoridades. Segundo ele, o modelo atual garante impunidade a políticos e administradores sob investigação por corrupção ou fraudes.

Avelar destacou que, desde 1988, o Supremo Tribunal Federal (STF) jamais condenou qualquer réu detentor de prerrogativa de foro. "O Brasil ainda é o país da impunidade", afirmou, citando dados da Associação Brasileira de Magistrados (AMB). "Não é possível que, em todos esses casos, não houvesse sequer um culpado."

Avelar abriu o IV Congresso Nacional de Delegados da PF, em Fortaleza, onde a classe colocou em discussão o combate à impunidade. O evento é patrocinado por instituições como Caixa, Petrobrás, CBF e o governo do Ceará. "Houve rateio entre as instituições, para nós qualquer ajuda é muito bem vinda."

O delegado assegurou que "o que se pretende não é a punição pela punição, o que se quer é que sejam julgados esses processos". Segundo ele, "para se fazer Justiça tem que haver julgamento, ainda que seja para absolver".

"É normal, está correto que de 88 para cá houve sequer uma condenação de quem tem foro privilegiado na instância máxima do Judiciário?", insiste Avelar. "Isso é algo que tem que ser questionado."

Avelar rejeitou poder de investigação para o Ministério Público. "O Ministério Público não quer ter atribuição de investigar, ele quer ter a prerrogativa de investigar. Com isso, ele deixa de ser obrigado a investigar e passa a escolher quando e quem vai investigar. Isso é inconcebível, é muito perigoso."

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Câmara debate assento na ONU

Meta da política externa do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a conquista de um assento no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) será debatida amanhã em sessão da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara pelas autoridades que mais têm se empenhado no pleito: os ministros das Relações Exteriores, Celso Amorim, da Defesa, Nelson Jobim, e de Assuntos Externos da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia. Mais que o prestígio internacional pretendido pelo Brasil, o que está em jogo também é a condição do país no conturbado cenário bélico composto, por um lado, pelas guerras convencionais e, de outro, pela permanente ameaçada do terrorismo internacional.

Num debate sobre o Brasil e a ameaça terrorista, travado há cerca de três meses na Comissão de Segurança da Câmara, o ministro Jorge Félix, chefe do Gabinete de Segurança Internacional (GSI) da Presidência da República, revelou uma preocupação que não tem entrado nas análises da diplomacia ou de quem defende o assento como fator de prestígio internacional. O general explicou que não há ainda indicativo de que a suposta movimentação de terroristas na região da fronteira tríplice de Foz do Iguaçu (Brasil, Argentina e Paraguai) represente alguma ameaça, mas foi taxativo quanto ao futuro: caso conquiste uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, o país deve, sim, se preocupar com a hipótese de se tornar alvo.

Por esse raciocínio, uma cadeira permanente, com poder de decisão (veto ou aval) dentro do Conselho, retiraria o Brasil da sua “eterna neutralidade”. Favorável ao pleito, o senador oposicionista Demóstenes Torres (DEM-GO),diz que o Brasil precisaria primeiro superar as deficiências de suas políticas externa e interna em questões que passam pelo “rompimento do complexo terceiromundista à melhoria de seus sistemas de segurança e defesa”.

– O Brasil tem vocação para o Primeiro Mundo, mas quer liderar quem não quer ser liderado por ele – critica Torres, ao se referir a uma suposta “insistência” da diplomacia brasileira em priorizar relações com países como Venezuela, Bolívia, Argentina ou a recente posição na crise de Honduras. Torres observa que enquanto o governo não abandonar a política externa “pouco ortodoxa”, como o apoio ao Irã – um país que desenvolve a energia nuclear para fins bélicos – ou a Venezuela, dificilmente conquistará a cadeira. Internamente, o senador acha que as declarações de autoridades como o general Jorge Félix são um sintoma do despreparo para lidar com uma eventual ameaça terrorista. – O Brasil deveria adotar o combate ostensivo ao terrorismo, mas trata a questão de forma irresponsável.

Segundo ele, as autoridades fazem vistas grossas para a presença de terroristas na região da tríplice fronteira e dá abrigo a representantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs), como o padre Olivério Medina. No plano interno, lembra o senador, a política do governo Lula ainda é marcada pelo “puritanismo” de tratar o crime organizado com políticas sociais.

– O PT e o governo já perderam as ilusões do puritanismo político e econômico. Mas ainda falta o da segurança – cutuca, ao defender leis e ações mais duras de enfrentamento à criminalidade, fatores essenciais, segundo ele, para poder sonhar com uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU.

Membro da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, o deputado Ibsen Pinheiro (PMDB-RS) acha que o assento não é crucial, mas deve ser conquistado mais pela percepção externa sobre o papel do Brasil num novo cenário internacional do que pelo empenho das instituições.

– O Brasil não é mais Terceiro Mundo. O papel de bom moço ficou com a imagem do país do futebol e do carnaval. Já perdemos a neutralidade – avalia o deputado. Ibsen Pinheiro acha que o avanço em direção ao clube dos desenvolvidos é consequência da presença comercial do país no mundo. – Isso nos onera. Não é opção. A cadeira no Conselho será um reconhecimento.